PJL-43

Quando o papel dá consistência aos sonhos

Quantas caras pode assumir o papel, ou, vice-versa, quantas abstrações pode materializar? A artista carioca Flaminia Mantegazza não evita nenhuma dessas duas estradas e, munida com papel jornal ou páginas de revistas, cria seus próprios mundos pessoais. Pequenos pedaços de folhas multicoloridas se juntam para compor estados interiores ou de sonhos, por meio dos contrastes das cores e volumes.

Começando com o uso deste suporte, suas telas se transformam em um material de montagem autêntico: aplicadas e moldadas as minúsculas partes emergem da superfície, afrouxando os limites entre a imagem bidimensional e a imagem plástica, indecisas entre a pintura e a escultura. “Curiosas uniões de fragmentos,” escreve o crítico de arte Maurizio Vanni, “elementos contaminados, dissonâncias harmônicas, oximoros óticos, ladrilhos de um mosaico universal, eternamente se desenvolvendo: estas são as sensações que qualquer um que tenta penetrar em seu trabalho experimenta”.

Apesar desta técnica particular, Flaminia Mantegazza embarca em uma busca pela essência dessa verdade que não pode aparecer a olho nu e, sondando as profundezas do universo da abstração, tem sucesso em fazer seus sonhos tangíveis. “A comparação com sonhos,” explica Vanni, “corresponde à liberdade lúcida da expressão de uma pessoa que - pela criatividade não necessariamente controlada - deseja quebrar os moldes, ir além das convenções, interceptando a essência de uma imagem ou a extrema síntese de uma forma.” Uma liberdade absoluta que a leva ao contato direto com sua parte mais instintiva, menos investigada, com aquela parte mais profunda do subconsciente, a fim de revelar seu segredo mais íntimo. “Os sonhos de papel da artista brasileira,” conclui Vanni, “são notas visuais verdadeiramente inesperadas e imprevisíveis, que adquirem consistência primeiramente na mente e depois nas mãos de uma pessoa que decidiu seguir até mesmo seus sonhos diurnos, suas visões conscientes que - embora contempladas por Freud - revelam muito sobre a artista e sobre as emoções que presidem o seu trabalho artístico”.

Michela Cicchinè

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PERINI JOURNAL 43